terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cachaça e pedaços de Vidro


Eu vinha caminhando pela noite suja desta cidade imensa. Acabara de sair de uma festa e já me encontrava bastante alcoolizado e as paredes pelo caminho me salvaram mais de uma vez de acabar na sarjeta com a cara enfiada nas poças de lama. Minha roupa cheirava a cigarro e isso só fazia piorar o modo como minha cabeça girava. 

O metrô naquele horário parecia estranhamente calmo, como se a cidade, mesmo daquele tamanho, decidisse ir dormir mais cedo, deixando a noite para os bêbados e assaltantes de plantão. E logo um destes batedores de carteira veio me abordar, exigindo que eu passasse toda a grana que eu não tenho. Para não sair de mãos abanando, ele levou outro passe de Ônibus que eu ainda possuía. Uma perda pequena após uma boa cachaçada.

Desci na minha estação e segui caminhando pela avenida. Ventava como se Deus quisesse limpar as ruas de toda a escória e estava difícil de continuar daquele jeito, mas mais de uma vez o cara lá de cima atentou contra mim e não seria desta vez que ele venceria. Continuei caminhando, mas não demorou até que eu finalmente caísse no chão após tropeçar em uma falha qualquer na calçada. Ouvi junto com o vento uma risada e já ia praguejar contra os céus quando olhei mais adiante e uma garota veio em minha direção. Perguntou se eu precisava de ajuda e mesmo respondendo que não ela me pôs de pé. Devo admitir que sem ela eu teria ficado ali e descansado um pouco antes de prosseguir. 

Perguntou-me se eu conseguiria prosseguir, mas ao me soltar, quase caí novamente. Ela perguntou onde eu morava e perguntou se gostaria que ela me levasse até lá. Bravejei que meu dinheiro havia se acabado e que não poderia gastar com mulheres de vida fácil como ela. Riu alto como estas sujeitas estão acostumadas e disse que a noite estava ruim e que esperava que com uma boa ação aquilo pudesse melhorar. Aceitei a ajuda e na porta de casa, senti o vento frio cortar o corpo de ambos e perguntei se ela não gostaria de entrar e tomar um café. Aceitou logo e ao entrar na casa logo foi tirando o casaco. Sentou-se no sofá e perguntou se poderia fumar ali. Mesmo não tendo estes hábitos, permiti que ela o fizesse. 

A idéia de fazer um café logo foi adiada pois já não havia pó para isso, mas achei no armário uma garrafa velha de cachaça. Peguei dois copos e levei para a mesinha da sala. Sem encontrar nenhum abridor por ali, resolvi abrir na beirada da mesa. Devido ao meu estado exagerei na força e acabei quebrando o bico da garrafa. Quase deixei cair uma lágrima por ter perdido a garrafa, mas a garota a tomou de minhas mãos, encheu os dois copos e me entregou um deles. Disse que sabia bem que ambos haviam vivido tanta coisa que uns poucos pedaços de vidro não nos mataria. Virei meu copo e tive que admitir que foi uma das melhores doses da minha vida. 

Mal acabei de tomar outra dose e comecei a reparar na minha salvadora. Usava uma saia curtíssima e colada ao corpo. Deixava à mostra pernas bem feitas envolvidas com uma meia calça que só fazia melhorar a visão. Estava com uma blusa de alcinhas que corriam o perigo de arrebentar por conta do peso dos seios fartos. Sentei-me ao lado dela e comecei a perguntar mais sobre ela. A quanto tempo estava naquela vida, de onde era, quantos anos tinha. Me disse várias coisas, conforme a garrafa ia sendo esvaziada, ela dizia mais sobre seus sonhos, esperanças e amores. Não sei em que momento aconteceu, mas quando dei por mim ela estava chorando. Abracei-a e acabamos nos beijando. Um beijo forte, intenso e agressivo, como se antes de oferecer nosso amor, estivéssemos tentando ferir um ao outro. Coisa típica de pessoas que já foram muito machucadas pela vida. Arranquei sua roupa e joguei a saia longe. Na violência do momento acabei rasgando sua meia calça. Ela arrancou os botões de minha camisa na fúria de seu desejo. Senti suas unhas marcando fundo em minha pele o seu desejo. Colocou o preservativo como somente as profissionais conseguem, com uma habilidade perfeita. Jogamos-nos no chão da casa sobre meu velho tapete herdado de algum parente a muito enterrado. Nos amamos como dois solitários à procura de um pouco de calor na vida fria que levávamos. Seu perfume barato inundava meu corpo e me fazia sentir mais desejo ainda daquele corpo. Chegamos ao orgasmo juntos e a seguir adormecemos ali mesmo.

Acordei com uma ressaca gigante. Estava nú e abandonado no chão da sala. Procurei pela casa pela minha companheira e só achei fragmentos de sua presença. Uma toalha molhada abandonada no banheiro, o perfume na cozinha e um bilhete junto à garrafa vazia:

“ Desculpe não estar aqui quando você acordar, mas eu precisava voltar para casa. Adorei a noite que passei contigo e por favor tenha mais juízo ao sair pelas ruas naquele estado. Nem sempre poderá contar com minha ajuda para chegar em casa. “
Beijos,

XXXXXXXXXXX

O bilhete me deixou com um sorriso bobo e disposição para voltar ao velho computador e voltar a escrever. Ela voltou mais de uma vez à minha procura e foi recebida todas as vezes. Acabei me afeiçoando àquela mulher da vida, mas logo descobri que ela havia ido embora para outra cidade por ocnta de uma ótima oportunidade de emprego. E minha surpresa foi ainda maior ao descobrir que eu era conhecido nos pontos da cidade como um cavalheiro e que ela havia ido embora por ter se apaixonado por mim. E para minha infelicidade ela não deixara contato ou meios de ser comunicada.

Por isso, escrevo estas linhas e as publico na esperança de que seja onde minha amada esteja, ela leia e saiba que eu ainda a espero em minha casa suja, com a garrafa de cachaça e com tanto amor no coração que chega a doer. E que não precisa avisar antes, pois meu corpo e meu amor à esperam ali no mesmo lugar, para nunca mais deixá-la ir embora.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

E Fale-nos sobre o Canalha Sentimental

Tudo começou por conta de uma frase: 
-Pronto, agora estou em suas mãos! 

Não foi dita sem pensar expressava a mais profunda sinceridade entre duas pessoas que a pouco tempo se relacionavam, mas já se importavam bastante um com o outro. 


A resposta veio em forma de exigência:
-Então escreve um texto para mim!

Prontamente respondida com outra exigência:
- Só se você também escrever para mim!

As consequências? Dois ótimos textos que apresentamos a seguir


Agora é fato! Você me tem...
Foi assim, manso, come-quieto, chegou devagarinho com esse jeitinho ‘mineirim’... Umas conversas alheias, umas bobagens aqui e ali, algumas poucas risadas que fizeram com que se tornasse essencial... fundamental em cada dia. Como se eu necessitasse de uma dose Tua para que meu dia fique completo, quase um vício. Preciso das nossas conversas diárias, um pouquinho só de você já me satisfaz. As vezes me pergunto com quem realmente estou falando... hora um menino, hora um homem. É exatamente assim que o sinto, um menino bobo que ainda nem aprendeu o que é a realidade, vive numa eterna história em quadrinhos, cheias de monstros, super-heróis, amigos imaginários, dessas onde o mocinho sempre vence. Todo o sentimentalismo que o toma e não o deixa perder a inocência da criança, esse mesmo que já me surpreendeu por diversas vezes  quando estou desprovida do que me protege de afetividades, por que assim você faz, me desarma das minhas teorias sobre ‘como não se deixar levar por palavras’ quando tão simplesmente fala ‘você é especial , linda!’. Ah, um menino que reclama e choraminga da dor de dente, o meu menino (isso mesmo, meu!). E quando penso que não, você toma forma de homem, forte, cheio de frases bem elaboradas, usando do conhecimento e experiência que adquiriu ao longo dos anos e é nessa hora que invertemos os papéis, eu fico sendo a garotinha que tão somente acredita em conto de fadas e sofre por amores impossíveis, que só senta e chora por não saber o que fazer. Esse homem que existe dentro de você, aprendeu com o tempo que não pode viver apenas de sentimentalismos, que isso não o levará a nada, esse lado canalha que ao menos se importa quando escreve um poema pra uma garota enquanto beija outra, por que se importaria? Quando ouvi a primeira vez a maneira como as pessoas o chamavam não conseguia entender o valor disso. Canalha sentimental, mas o que isso realmente significa?  Hoje com algumas horas a mais passadas juntos consigo compreender ainda como um borrão, uma pintura inacabada que ainda não se pode ver perfeitamente mas se tem alguma noção do que mostra, que você é a junção desses dois seres que moram em você, esse menino inocente e esse homem forte que o fazem ser quem é. O ponto de equilíbrio perfeito. O Canalha Sentimental.
Sei que isso ainda é uma síntese extremamente vaga e precária daquilo que pude observar. Quero poder continuar a desvendar os mistérios do infinito ser que existe em você, mesmo que isso pareça uma idéia louca e insensata.
Pra você, meu querido
Jardel Maximiliano

Texto da Querida @Damaris_Psico dona do blog http://damarisantunes.blogspot.com/


E eu sem ler o texto acima escreví este:

É bem estranho quando chegamos a um ponto e olhamos para trás no desejo de poder mudar um pequeno ato. Poder ser aquele beijo roubado, aquela vontade de confessar que você ama a pessoa e se importa com ela, sair de bicicleta ao invés de sair de carro ou levar um guarda-chuva logo pela manhã.
Pequenos gestos que podem mudar uma vida inteira ou então apenas mudariam pequenas coisas em uma vida gigante, imensa, infinita em detalhes. E isso sem contar que eu acredito que todas as coisas no mundo estão interligadas. Se eu pudesse mudar apenas uma pequena coisa, eu teria parado para dizer oi para alguém. Mas esta pessoa esta agora a 1,300 kilômetros de distância.
Com os avanços das comunicações esta distância acaba sendo superada em alguns aspectos, mas nunca vai me permitir olhar nos teus olhos e poder dizer OI. E é estranho que mesmo alguém que você não conhece pessoalmente, se torna importante a ponto do seu dia parecer incompleto se não conversou com ela. Você pensa em coisas que ela gostaria de saber, conta sobre o seu dia e espera pacientemente por ela para saber serenamente como foi o dia dela.  E você gosta da pessoa, vê fotos e sente-se nostálgico, sente vontade que ela esteja perto, mas ao mesmo tempo sabe que se ela estivesse próxima fisicamente tudo seria diferente. E eu acabei gostando de como as coisas estão. E sei que quero encontrá-la um dia. Mesmo sabendo que possuo um dom extremo de fazê-la perder a paciência.

E eu não quero perder a amizade dela. Não quero deixar de entrar em uma rede social só para ver que ela sentiu minha falta durante o dia, não quero de modo algum saber que ela esta triste, até porque ela, mesmo neste curto espaço de tempo, tornou-se alguém importante para mim.
E em outro momento ela chega brigando comigo, reclamando de pequenas coisas, fazendo exigências que me deixam chateado e feliz por saber que ela gosta de mim e sabe que eu faço parte do dia dela. É meio egocêntrico isso, mas ela me faz sentir importante em uma época que o natural é eu me sentir sozinho e ela continua aqui comigo. Mesmo agora no momento em que eu infelizmente não consigo me conectar à internet, nosso meio único de comunicação.
E recentemente descobri que gosto tanto dela a ponto de sentir ciúmes e acabar “exarcebando minha dor de cotovelo” nas conversas com ela e isso assustar ambos. Gosto a ponto de pensar 157 formas e jeitos de escrever um texto para ela, não para agradá-la, mas que seja à altura do que eu sinto por ela e sabendo bem que não sei definir isso. E por isso eu escrevo este texto meio quebrado, que sai em partes esparsas, mas que acaba sendo bem mais que a soma das partes.

Sei que este texto nunca ficaria pronto se eu continuasse escrevendo, até porque eu sei que vou mudar um pouco cada dia o que sinto por você. Quero sinceramente que ela seja feliz, que um dia eu consiga encontrá-la novamente que eu possa parar olhando-a nos olhos e dizer aquele “Oi” que ainda está preso aqui dentro desta cabeça tão confusa e agitada que ela ajuda a tornar-se menos caótica.
E não esquece menina que você é importante e que gosto bastante da nossa amizade.
Do confuso e complicado,

Jardel Maximiliano

 E aí pessoas, o que acharam?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Seis Dias

Meu Bem,

Vou tentar nesta carta demonstrar tudo que estes seis dias formam pouco para expressar. Sei que posso parecer precipitado, louco ou qualquer outro adjetivo que você possa inventar para um sujeito que mesmo hoje em dia ousa amar.

É bem isso, Eu Te Amo! Amo-te e me sinto idiota por isso. Demorei seis dias para perceber o que eu realmente sentia por você. E admito isso me deixa surpreso, mas as coisas só ficaram claras para mim ao perceber que a primeira coisa que eu queria pela manhã era o brilho dos teus olhos. Minhas piadas só surgiam tão fáceis para ver o teu sorriso. As vezes em que almoçamos juntos e eu pedia sua opinião sobre o pedido era somente pra poder provar aquilo que você havia escolhido na certeza que ficava bem melhor. E se pedia separado era somente para comer do teu prato e te oferecer um pouco do meu. Sei lá, pequenos sinais que me fizeram perceber algo que meu coração tinha certeza. Era só você estar ao alcance da visão e ele já descompassava como se dissesse: É Ela.

Sim é você e já não há mais meio de negar que ao entrar naquele ônibus hoje à noite, vou levar todos os nossos pequenos momentos: as filas para o almoço, a procura de uma mesa para sentarmos juntos, o desejo incontrolável de te encontrar em todos os cantos. De quando você ao sair sempre deixava teu perfume na minha barraca e impregnado em meus poros para que assim você me perseguisse até o momento do meu banho para em seguida me dar um abraço e deixar lá teu cheiro novamente. Dos momentos em que trocamos beijos no metrô e na lanchonete e todos ao redor olhavam como se aquilo fosse uma afronta, que desejo como aquele não podia ser externalisado assim à luz do dia e em um ambiente público. De como você me olhava enfurecida quando com outra eu falava e vinha sem pestanejar perguntar quem era aquela “fulaninha”.

Sei que seis dias foram o nosso tempo e que o resto da vida ficará por nossa conta. Sei que os caminhos podem voltar a se cruzar, depende de nós. Mas sei também que a angustia da volta será completa com as lágrimas que sei que vou derramar de felicidade e de dor. Por ter te conhecido e por ter que te deixar. Lágrimas que achava ter secado, mas que brotam facilmente enquanto escrevo estas linhas para você.

Linda fica bem com meu amor e com a certeza das minhas preces para que meu beijo volte a encontrar o teu, e que isso não demore.

Do Teu,

Jardel Maximiliano

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Que Fica na Pele...

A mordida foi muito forte. Ele sentiu na boca o gosto do sangue e a dor veio junto. Ela estava com um sorriso louco e um olhar selvagem. Lambeu uma gota de sangue do canto dos lábios e avançou novamente sobre ele. Os corpos estavam nús e quentes. Uma camada de suor já os envolvia facilitando os movimentos. Observando, qualquer um acharia que estavam brigando, mas ambos bem sabiam que era o ritual que levaria ao prazer. Arranhões, tapas, mordidas e hematomas. Era a plena e incontida selvageria sexual.


Uma Pausa


Eles se encaram, a luz é acesa. Ela se levanta e enrolada em um edredon vai ao banheiro. Ele vai à cozinha e lá se serve de água, quase uma jarra toda. Quando ela voltou para o quarto ele já estava deitado. Os Olhares voltaram a se cruzar, ela deixou o edredon cair no chão e já apagava novamente a luz.


Fim da Pausa.


Outro combate, nova entrega e novas disputas. Ao final de algumas horas estão ambos exaustos. Cada músculo do corpo dói ao menor movimento. No momento estão alí quietinhos abraçados. Calmamente o sono chega e os envolve.


O sol se levanta e ele precisa deixá-la. Um abraço demorado na cama, uma leve mordida na orelha. Ele se levantou e vestiu as roupas que haviam espalhado pelo quarto. No portão trocaram outros beijos e um último demorado, bem demorado.


Durante todo o dia sentiam o corpo doer e os arranhões ardiam. Um pensou o dia todo no outro por conta destas marcas e dores. E souberam que por mais que a cabeça não pudesse lembrar de cada detalhe da noite anterior, os corpos sentiam. A vontade de estarem juntos novamente ia crescer, sentiam isso com cada fibra de seu ser. Mas deixa o tempo passar um pouco para que os corpos possam se recuperar...


Jardel Maximiliano


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Xadrez

A vida não é um jogo de xadrez. Melhor dizendo, as regras, definitivamente, não são as mesmas. A rigidez dos personagens envolvidos ou, até mesmo, de suas jogadas, não pode corresponder à realidade do mundo. A vida seria insuportável, de tão monótona. A mais importante partida que tive conhecimento, quebrou com todas as expectativas e regras, criando um jeito bem diferente de se encarar as batalhas do dia a dia. Quebrou as regras, até mesmo das histórias... ao invés de terminar tudo em tragédia, tudo começava em uma.
Com apenas duas movimentações e, o Rei, já estava tombado no campo de batalha. Tombado ou, talvez, só tenha sentado no chão, muito cansado de tanta luta, se retirado para o banco de reservas com mulher e filhos pra criar. A Rainha era, na verdade, paixão de sua vida, mas uma causa muito difícil de ser sustentada e, com o tempo, sua movimentação no tabuleiro, nem era mais a mesma.
Desvantagem clara. Eram as peças negras, eles haviam sofrido o primeiro ataque. Aliás, sofreram o primeiro ataque por um costume horrível de deixar tudo pra depois... aquele tipo de gente que acredita que nunca serão atingidos e, todo dia, perdem um pouco mais da liberdade, dos direitos. Então, a Rainha, que era a Causa, os Ideais, a Musa deste exercito, já não vinha sendo grande coisa nos últimos anos. Imagina agora, com o Rei tombado. Era o fim da partida.
As peças maiores começaram a se retirar do tabuleiro. Não tinha mais o que ser feito. Tudo o que acontece em um jogo normal, a não ser pelo fato de que, os peões, continuaram parados por lá. Firmes e de armas em punho. Foi aí que o Bispo disse:
_ Ei rapazes, não temos mais o que fazer aqui. – e disse pra si mesmo – peões... não são muito inteligentes.
Era um daqueles bons conselhos que os mais experientes nos dão. Óbvio que os peões perceberam a loucura que estavam fazendo. Eram peões inexperientes e ingênuos, acreditando que o jogo poderia ser jogado apenas com eles. Quem eles pensavam que eram? Abaixaram as armas e começaram a retirada. Ao fundo, podiam ouvir as risadas das peças brancas, que já tinham ido todas embora. Só um peão permaneceu parado. Aliás, uma peça muito estranha, que não esboçava nenhuma reação. Parecia ter os olhos para dentro de si.
Uma peça de xadrez observadora! Coisa mais absurda, ainda mais, sendo ela, um peãozinho qualquer. Tão igual aos outros. Mas a ironia de tudo é que o peão, pensava nisso mesmo... ser igual aos outros.
Os peões eram iguais, quem perceberia qual peão é qual peão? Peão serve pra ficar na frente, na linha de batalha. São apenas números. Peças sem importância... sem passado ou futuro. Daí, se qualquer peão, poderia ser qualquer outro peão, por qual motivo um peão não poderia ser um Cavalo, uma Torre e, quem sabe, um Rei.
O que não sabíamos nessa história toda é que esse peão pensante, não começou a pensar sozinho. Não se tratava de um peão-gênio, era um peão comum... [quer dizer, nem tão comum]. O que fazia esse peão diferente era um costume diferente. Diferente, inclusive, entre as peças de nobreza. Era um peão leitor.
Um peão que começou lendo as regras do xadrez, que vinham em um encarte junto do tabuleiro. Depois leu sobre outras regras e mais regras e muitas das regras do xadrez. Viu que aquilo era bom e descobriu que, em outros jogos, existiam outras regras. Esse tipo de literatura revolucionária o fez pensar: “se fosse num tabuleiro de damas, eu teria outra história”. Damas, gamão, mancala, go e mais um tanto de jogos, permitiam jogadas diferentes. A batalha poderia se dar de muitas formas e ele preso no tabuleiro preto e branco.
Continuou parado, sem arredar um passo para trás, mas os lábios começaram a se mexer. Ele discursava, dizia bem alto:
_ Ainda podemos lutar [...] o jogo continua se [...] certa vez, conversando com uma peça de gamão eu descobri que [...] as habilidades de cada um podem...
Falou bastante, mas as peças não lhe deram muita atenção. Logo, retornaram seu trajeto para saírem do tabuleiro, deixando o nosso herói sozinho.
Todas as peças, uma a uma, se retiravam do jogo. O peão permanecia firme. Por fim, sobrou ele um Cavalo, o último a sair. O último, por que no fundo, ficara em dúvida consigo. O peão parecia tão maluco que devia ter uma lógica naquilo tudo que ele falava. Quase pronto para pular do tabuleiro, olhou para trás e disse:
_ Se você tiver coragem de levar isso até o final, eu fico aqui ao seu lado. – e continuou – Você tem certeza disso tudo que disse?
O peão, com um sorriso meio tímido, meio orgulhoso respondeu:
_ Tudo o que disse, foi por conta das minhas incertezas, de não saber quais casas ou quantas, me eram permitidas andar. Certeza eu não tenho nenhuma.
O cavalo virou de costas para a borda do tabuleiro, chegou mais perto do peão, olhou aquela pecinha de cima a baixo. Sabia que tinha todos os motivos do mundo pra se arrepender em breve, mas sabia também que, se não ficasse até o fim, iria se arrepender muito mais. Então perguntou para o peão:
_ E qual o primeiro passo?
_ Podemos começar pelas regras do jogo...

Marcelo T. Marchiori

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A Bela na Noite

Mais um copo de bebida. Já era o décimo e ele já havia misturado todas as bebidas da festa. Não se importava nem um pouco com a ressaca de amanhã. A grande batalha deveria ser vencida hoje e ele não fugiria.

Ela dançava no meio da pista atraindo a atenção de todos. Nosso herói observava hipnotizado aquele momento e mais de uma vez perdeu o fôlego diante da beleza da cena. Se tivesse um desejo, ele teria pedido ela! Mas agora ele tentava aguentar a falta dela com a bebida.

A cerveja já não fazia mais efeito aparente e ele começou a pedir bebidas cada vez mais fortes, sem se importar com os gastos na boate. E cada dose fazia o mundo ficar melhor.

Sentiu crescer no peito a coragem que a muito o havia abandonado. Mas aquela situação era complicada. Por mais que ele se sentisse confiante naquele momento, ainda tinha uma certa relutância em ir até ela.

Qualquer homem ao observar a cena notaria os motivos que deixavam aquele sujeito em dúvida. A moça dançava como se fosse a dona do mundo. O planeta girava na velocidade que ela queria. Cada giro, volta e movimento era para controlar a tudo de acordo com a sua vontade. Um passo em determinada direção e os homens se jogariam aos seus pés, largariam tudo, venderiam casa, carro tudo para satisfazer seus desejos. ela sabia bem como ter tudo o que queria e justamente por isso quase sempre se sentia vazia. Vazia e solitária. Podia tudo e justamente por isso nada tinha graça. Era incapaz de sentir nada por aqueles ao seu redor. Só senti aprazer em moldá-los, controlá-los.

Obviamente ele não sabia disso. Ele só sabia que para ir até ela e tentar algo era um ato que merecia no mínimo mil canções. Seria algo para contar para seus netos em uma noite quente dalí a 50 anos. Ele diria até que isso merecia ser colocado em qualquer currículo que ele escrevesse para tentar qualquer emprego. Seria o ato de sua vida.

Faço uma pausa em meu relato para explicar aos que acham que ele está exagerando, mas apelo para a memória de vocês para justificar as atitudes e pensamentos dele. Lembrem-se de como era estar a fim de alguém. Aquele desejo verdadeiro. Aquela pessoa que te roubava o ar ao aparecer. Imagine aquela que seria capaz de alegrar o pior dos teus dias. Agora imagine-se indo até esta pessoa e dizer que você está a fim dela. Que deseja seus beijos. Imagine fazer isso diante de um monte de pessoas que estão com a atenção voltada para o que você fará. Imaginem que vocês farão isso daqui a poucos momentos...

Mas vejam, ela lá rodeada de pretendentes e nosso herói bebendo. Ouvia as palavras de incentivo do seu melhor amigo para que tentasse algo logo, pois ficar naquela situação é que não podia. Xingava, apelava, oferecia mais bebida, tudo para que o cabra tomasse logo coragem de ir até a garota. Por mais que o amigo tivesse a certeza de que aquela seria uma tarefa que beirava o impossível, mas sabia também que para os Canalhas Sentimentais, o impossível é derrubado no exato momento em que você perde o medo de ousar. Inúmeras vezes puderam comprovar isso, mas sempre fica lá no fundo aquele medo enraizado, aquela parte que nos torna humanos e que não deixava que eles se tornassem conquistadores baratos.

Uma dose de pinga, talvez a 7ª, mas quem é que estava contando? Enfim, sabe aquele momento em que você joga todas as suas fichas na mesa e aposta alto, BEM ALTO? Foi o que ele fez. Foi em direção a ela. Ao circulo que foi feito em torno dela. Só ele ousou ultrapassar o espaço que fora deixado por todos para que ela continuasse dançando em todo o seu esplendor.

Mas vejam, ele ousou tanto que chegou dançando!

Tocava um samba dos bons, daqueles que a tempos ninguém fazia. E ele foi lá sambar...

Todos ficaram revoltados com aquilo, ele perturbara o espaço dela, espaço que era só DELA!

E ela ficou admirada, que sujeito era aquele que a desafiara daquela forma? De onde ele tirara a idéia que poderia sambar tão bem quanto ela? Ela aumentou o ritmo, fazia passos complicados, queria vencer o coitado pelo cansaço1

Imagina um sujeito que é jogado no meio da fogueira e lá tem que improvisar para se safar?
Era aquele cabra que resolvera ir sambar ao lado dela, que ousara sambar ao lado dela. Cometera tal ousadia e de modo algum ela facilitara o processo. Sambava e rodava como um ser sobrenatural e naquele ritmo venceria qualquer um. Ele estava cansado e sem fôlego já, mas ela cruel ousava e exigia cada vez mais gingado...

Ela estava admirada como aquele trapo (igual a todos os homens são diante dos seus olhos) ainda aguentava o tranco do seu gingado. Mas até que ele sambava bem, mas não aguentaria muito. Logo, logo desistiria...

Morto, era assim que ele estava, já aguentara muito, ousara demais gastar o samba que tinha tentando se equiparar àquela Deusa. Seria uma vergonha desistir, mas ele não tinha qualquer saída. Ele deveria logo entregar os pontos e se dar por vencido, mas teve uma idéia.

Quem estava presente viu que o sujeito não tinha esperanças. Ela dominava o jogo e fazia as regras. Mas ele, ousado, a puxara para dançar. De corpo colado, olhando nos olhos, mantendo o gingado do samba. Parecia que ambos nasceram para aquele momento. Um encaixe de corpos, movimentos exatos, dançando cada vez melhor. E para coroar, ao acabar a música, se olharam diretamente e se beijaram...

Ele chegou em casa somente às 10 hrs da manhã do dia seguinte...

Ela ao deixar que ele fosse embora ficou com aquela vontade de tê-lo de volta logo..

.. e ambos tinham aquele sorriso bobo na cara. Aquele sorriso que somente os vencedores e ousados da noite conseguem ostentar...